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COMO ME SINTO

Você nem parece Brasileira

, por fialhogi

Lembro exatamente da primeira vez que ouvi a frase “Você nem parece Brasileira!” – com espanto a moça da gelateria me disse, como se fosse um elogio único, motivo de maior orgulho. Isso foi em 2014, e até hoje pelo menos 3 vezes na semana, ainda escuto.

Acontece que essa frase está carregada de preconceitos, e apesar de ter sim muitos traços Italianos herdados com sobrenome, que me possibilita ser ItaloBrasiliana, ainda sim sou uma Brasileira como outra qualquer, e me questiono como uma Brasileira deveria se parecer.

O primeiro deles é o estereótipo de que toda Brasileira é morena, com seios fartos e uma bunda maior que da Kim Kardashian, cabelo escuro e muito samba no pé. A moça da gelateria quis dizer no meio das linhas que eu tinha muita “sorte” de não parecer com isso, de não parecer Brasileira, de não ser negra em outras palavras.

Quando a gente fala sobre privilégio branco essa é a prova mais clara, ser branca não fez da minha vida mais fácil, porém nunca atrapalhou minha vida.

Outro dia no trem, voltando da aula, dois policiais abriram a porta com força e imponência, gritando que iriam conferir o documento de todos os imigrantes. Ao meu lado tinha um senhor negro, três assentos para frente uma mulher muçulmana, escutei a porta de trás se abrir e alguém descer, inquieto um dos policiais foi atrás.

O fato é que o outro policial conferiu todos os documentos e fez perguntas para a senhora e o senhor, quando me prontifiquei em dar minha carteira de identidade italiana, ele disse me abriu um sorriso e disse que não precisava!

Por mais que me sinta cada vez mais Italiana e que reconheço nas memórias da minha criação os traços hereditários (como comer macarrão com manteiga e só), ainda sim sou Brasileira, sou filha de nordestina! 

O problema não é ser de fora e não parecer com eles. O problema não é se você trabalha mesmo sendo imigrante, mas é se você é Indiano e tem um mercadinho onde Italianos devem pagar a você. E você criar ocupar espaços que estavam vazios, é você participar da sociedade. 

Outro caso recente tão grave quanto, a Mesquita de Bellaria foi incendiada por intolerância religiosa causada de discursos cada vez mais extremistas. Mas isso não foi notícia, isso não foi importante.

Existe uma caça às bruxas legalizadas, eles vão pela cor, pela religião, pela cultura, pelo traço. Eles jogam a responsabilidade, eles culpam a imigração como se isso fosse de fato resolver o problema do mundo.

Mas eles se esquecem que um dia, muitas famílias Italianas se separam, principalmente na Guerra, em busca de uma terra melhor, com a esperança de encontrar oportunidades inexploradas. 

Sabendo da minha posição de imigrante privilegiada, faço o que posso para construir pontes e abrir portas para tentar tornar a vida de outros imigrantes mais fácil. Confronto afirmações preconceituosas com fatos, questiono relativizações e exijo retratações. Afinal, “mas eu estou falando isso entre nós, não falaria isso para um marroquino/nigeriano/indiano” não é um pedido de desculpas; é assumir o preconceito e se recusar a desfazê-lo.

Esse texto surgiu de uma outra reflexão e relato de uma outra Giovanna que também se viu nesse dilema.

Eu sou uma nova geração de Italianos, eu vou ajudar a transformar esse lugar em um lugar melhor. Enquanto todos a minha volta se calam e tem dificuldade de compreender, meu papel é questionar e fazer refletir. Sou o melhor dos dois mundos, e minha herança é essa.

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    Gi Fialho

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