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CINEMA

Coisa mais linda serie Netflix

, por fialhogi

Quando terminei de assistir Coisa mais linda, série brasileira produzida pela Netflix e lançada em março, tive uma sensação no estômago estranha, alguma coisa me incomodava. O elenco é maravilhoso, o figurino é justamente o que esperava, a trilha sonora é bossa nova, mas…

Foi isso que senti, senti que a série era boa, mas tinha “mas” um “porém” uma pedrinha no sapato. A serie Coisa mais linda é linda, mas como a série mesmo tenta nós dizer – só beleza não basta!

Esse texto contém spoilers.

As protagonistas são Maria Luiza | Malu (interpretada por Maria Casadevall) uma paulista, filha de fazendeiro, Adélia (interpretada por Pathy Dejesus) é negra, trabalhadora, diarista. Thereza (interpretada por Mel Lisboa) ela morou em Paris, viveu outros ares, é colunista/editora chefe de uma revista feminina escrita por homens e Lígia (interpretada por Fernanda Vasconcellos) melhor amiga de infância de Malu, que vive um relacionamento abusivo com o futuro prefeito, retrata a “família perfeita” e conservadora.

3 figurinos que gostaria de roubar

Coisa Mais Linda começa , passando na década de 1950, o seriado relata o surgimento da bossa nova por meio da trajetória dessas quatro mulheres.

Em uma época machista e muito conservadora, aborda a emancipação de cada uma delas, e a dificuldade pelo fato de serem mulheres com um Rio de Janeiro bem limpo (até as favelas) e romantizado.

A trama acompanha a trajetória de Malu com o objetivo de abrir um restaurante com seu marido, mas que vê os planos irem por água abaixo quando descobre que ele fugiu com outra mulher levando todo o seu dinheiro. Inspirada na figura moderna de Thereza e no apoio da amiga de longa data Lígia e de Adélia, a empregada doméstica que cruza o seu caminho quando tem um surto e quase coloca fogo no prédio, ela segue seu instinto em montar uma casa com música ao vivo depois de escutar a Bossa Nova pela primeira vez.

No meio disso tudo a serie aborda o poder de voz da mulher, abismo social entre mulheres negras e brancas, relações abertas, relações abusivas, o poder sócio econômico da mulher. Questões que infelizmente ainda são muito atuais, e que realmente precisam de protagonismo e reflexão, mas achei tudo muito razo, e quando não era razo era desnecessário.

Se a serie se vende como EMPODERADA – MULHERES E SORORIDADE – DEMOCRÁTICA é preciso se atentar aos detalhes. Não sou critica de cinema, nem a pessoa mais desconstruída, tudo isso é minha opinião apenas. A serie não é ruim, nem toxica, mas eu esperava um pouco mais.

Feminismo negro x feminismo branco e o  abismo social

  • DUAS COISAS IMPORTANTES:
  • Sei bem que esse não é meu lugar de fala e reconheço meu recorte e que nunca vivi na pele nada disso. Mas sinto que não falar aqui nesse post, mesmo que pela visão de uma branca privilegiada, seria negligenciar, e isso é muito pior.
  • Não sou uma pipoca furada na fila do pão para criticar uma mulher negra pelos papéis que ela faz, pois, sei bem que na maioria das não existe (infelizmente) escolhas e essa é pouca visibilidade que existe.

Vamos lá no meio da historia da Malu, existe a historia da Adélia, que é: a empregada, pobre, que desde muito nova trabalha, tem uma filha, é mãe solteira, analfabeta. Um clichê que a gente sempre vê na TV, mas esperava que nas series fosse um cadinho diferente.

Mas ok, a Adélia precisava existir para entrar em debate: RECORTES SOCIAIS – FEMINISMO BRANCO X FEMINISMO NEGRO. E é muito justo, inclusive uma cena entre ela e a Malu viralizou justamente por exemplificar esse abismo gigantesco que AINDA existe.

O problema é que depois dessa cena, esperava uma postura e uma presença maior da Adélia. A impressão que tive é que ela aceitava o comportamento da Malu como se devesse alguma coisa para ela, só porque a Malu não era racista em uma sociedade doente.

Lá está Adélia guerreira, aceitando tudo, (repito que eu não critico a personagem, mas quem a escreveu. Acho que faltou uma ligação, um e-mail um telegrama para as reais Adélias) porque simplesmente depois dessa mega discussão a historia dela gira em torno da paternidade da filha!

MANO! MANO! A MALU E UMA MIMADA DO CARALHO E A ADÉLIA QUE LIMPA TUDO NO COMEÇO, CHAMA OS CARAS PRA FAZER A REFORMA. Ela se torna sócia da Malu – 50% – mas, em nenhum momento vejo ela contando os dinheiros.

Em uma das cenas o Capitão (seu par romântico) diz para a Malu, que se der merda, o prejuízo é das duas, mas a ela tem para onde voltar (casa dos pais ricos) mas a Adélia não.

Duas cenas seguintes, Malu (que esta contando o dinheiro) fala que o bar vendeu horrores e a Adélia está do lado, a personagem nem da bola, fica pensando no outro boy.

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Adélia é uma personagem que começa a serie cheia de gás e espirito de revolução mas que depois fica a sombra de uma branca. Por mais que a cena tenha causado comoção, no restante da série a personagem se torna passiva.

No final ela ainda agradece a Malu, porque tudo de bom está acontecendo por que causa dela . Isso me incomodou, por que durante todos os sete episódios, varias cenas mostram Adélia trabalhando duro, enquanto Malu está na escada observando.

A Malu é uma ótima tem suas qualidades, mas acho que uma serie que buscava um peso maior e uma reflexão ainda maior, precisava representar melhor a Adélia.

MAMILOS FEMININOS E A NUDEZ – PRA QUEM VER?

A serie tem como publico alvo mulheres. Ela aborda pautas do feminismo, e isso é muito incrível, porque tudo é visto do ponto de vista da mulher. Inclusive a liberdade do nosso corpo.

Mas, cenas de sexo explicito, mamilos, nudez feminina. E tão desnecessária completamente questionável isso tudo é pra quem? E por quê? E

A sensação que tive e que essas cenas foram pura apelação para atrair e agradar o publico masculino sabe? Por que no fim das contas eu também tenho peitos, e não é preciso mostrar o sexo explicito para dar a entender o clima de tesão.

Eu quero ver mulheres falando sobre sexo, dizendo o que gostam, quebrando tabus, mas todas aquelas cenas não foram feitas para mulheres. Inclusive uma das cenas é um estupro!

UM ESTUPRO DE FORMA EXPLICITA! Isso não causa só incomodo em nós mulheres, causa dor, causa pânico. Isso não é bonito. Da para abordar o estupro sem precisar causar esse sentimento ruim dentro da gente sabe?

Mais uma vez, isso tudo não foi revolucionário, não foi empoderador, foi desnecessário.

Uma pauta sobre a liberação do nosso corpo que é o aborto, ficou muito, muito mas muito no razo. Isso pra gente é importante entrar em discussão, não os meus peitos eriçados para agradar homem.

COISA MAIS LINDA SÓ QUE MAGRA

  • Mais uma vez sei que mesmo não sendo 36 ainda sim estou dentro do limite do padrão aceitável e que sei que esse não é meu lugar de fala e reconheço meu recorte. Mas sinto que não falar aqui nesse post, mesmo que pela visão de uma magra, seria negligenciar, e isso é muito pior.

Vamos lá, a serie se passa em 1959, onde as mulheres eram curvilíneas, com seus seios fartos e quadris largos, esse era o padrão de beleza da época.

Porém a pauta escolhida é a objetificação das mulheres. Frases como “Você é tão bonita, vá curtir, deixe que dos negócios cuidam os meninos” ou como a mulher deve estar impecável, a pressão por ser bela, comporta e do lar.

Varias outras vezes piadas machistas comparando a capacidade das mulheres com sua beleza são jogadas na tela, e isso novamente é importante entrar em debate, mas: todas elas estão no padrão.

Uma serie que busca diversidade e quer trabalhar bem essa pauta sobre objetividade da mulher e a pressão que sofremos, deve ter no mínimo uma personagem que represente, que realmente sofra. No final são todas magras com cinturas finas e barrigas retas.

Até porque essa questão não é bem trabalhada e nem bem resolvida, elas que se mostram muito modernas e resolvidas, aceitam todos esses padrões quietinhas.

Eu gostei da série, mas esperava mais, espera uma atenção maior nos detalhes. Uma serie sobre a emancipação de quatro mulheres devia ter mais mulheres, e diferentes, trabalhando nisso. De todos os diretores dos episódios, apenas 3 são mulheres.

Coisa mais linda é linda é uma boa série, mas com falhas na realidade, deixando a desejar em assuntos relevantes, esperamos que a próxima temporada seja melhor, porque o elenco é realmente bom!

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    Gi Fialho

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