5 PRIMEIROS MESES DE INTERCAMBIO: TUDO MUDOU

Vim carregada de expectativas e não estava preparada para metade das coisas que aconteceram nesses primeiros meses. Não foi de todo ruim, claramente que não, mas pra gente aprender e evoluir é preciso errar.

Decidi que ia estudar aqui, e meu padrasto comprou (literalmente ele quem me ajudou a pagar) a minha ideia. Cheguei aqui 4 de outubro 2015 com um Italiano chinfrim de quem teve 4 meses de aulas duas vezes na semana. Entendia 60% do que falavam e falava 30%. Mas mesmo assim me joguei. Sou jovem e essa era a oportunidade da minha vida. Eu a abracei com receio mas de corpo e alma.

Aqui a geografia urbana é diferente e isso conta muito.
Cidades são divididas entre aquelas que são: para morar (no caso a minha), onde se tem uma estrutura maravilhosa mantendo uma qualidade de vida alta. Cidades industriais, que estão muito próximas as de moradia, mas só tem industrias. Cidades turisticas: Roma, Firenze, Milão, são poucos os italianos que moram exatamente ali, podem morar perto, sim, mas ali naquele centro difícil. Claro que perto dessas cidades de morar existem pontos de badalação, no meu caso a mais próxima é Rimini que fica a 30 minutos de carro. A estação de trem mais próxima é na cidade vizinha Savignano Sul Ruibicone, 30 de bicicleta. Nessa minha cidade a população é quase toda idosa, e todos se conhecem, ela tem o tamanho de um bairro pequeno de São Paulo. O que depois de um tempo nos faz sentir em casa. Quando saímos com nossas bicicletas cruzamos uns com outros e conversamos qualquer coisa, não existe pressa e tenho uma sensação de lar. Tem uma infraestrutura que suporta todas as necessidades de seus habitantes mas é bem pacata, mas a primavera esta quase chegando e as ruas ja estão todas floridas, e o sol energiza. Já falei sobre minha dificuldade de criar laços, mas alem disso para mim, uma garota cosmopolita, que cresceu na megalopole de São Paulo é complicado. Por vezes me sinto muito limitada e presa. Vem uma sensação sufocante, logo passa por que tento não deixar esses pensamentos me consumirem, dificuldades sempre vão existir e estou realizando um sonho. Estudar no pais da moda. E apesar de tudo isso, a cidade é cativante digna de um clipe da Taylor. Casas com sacadas floridas, cores pasteis, uma praça central com uma igreja charmosa e cafés fofos, assim como as gelaterias. Ah pelo amor de Deus! O mais bacana é que a cada esquina voce esbarra em algo mais antigo que talvez seu proprio pais. 

O curso foi muito proveitoso, aprendi tantíssimo. Hoje sou um shoes designer, estudei anotomia do pé, um pouco de ortopedia para se construir uma forma, sei usar o CAD, desenhar, fazer pesquisas, modelagem. Minha media foi oito e para quem chegou sabendo um cadinho da metade hoje falo fluente (com pequenos erros por vezes vai) mas entendo 100% de um Italiano normal e não o dialeto. Não tenho um diploma disso, mas foi uma das minhas maiores conquistas.

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Também não tenho um diploma timbrado sobre morar sozinha, mas estou orgulhosa de mim mesma nesses primeiros meses, manchei algumas roupas (inclusive mãe já aviso por que sei que vai ler, seu lençol brando agora ta novinho, e rosa, por que não vi que ele tava junto com o outro hehe) e queimei alguns prato mas agora esta tudo caminhando.
No primeiro mês achei que não suportaria, que morreria de saudade de solidão mas aprendi a curtir minha propria companhia, sinto falta do convívio sim, mas é falta só, não existe mais a minha dependência de ter sempre alguém do meu lado para estar feliz. Consigo me divertir na balada dançando sozinha, não tenho nenhum problema em ir ao cinema sozinha ou apreciar um café no bistrô degustando minha propria companhia.

Aprendi com a cultura daqui também, a valorizar a minha vida, a viver melhor e não simplesmente sobreviver. Aprendi a escutar mais, aprendi muito com as pessoas mais velhas daqui e muito bem dispostas. Aprendi que vou sofrer xenofobia por ser Brasileira e que por vezes vão dizer que você esta errada e que seu pais só tem aquilo que esteriótipos sugerem.

Evolui muito como pessoa, como ser humano, como profissional e como Giovanna, mas só por que me permiti errar mesmo não gostando, eu tentava, uma, duas e na quarta funcionava e aprendia, absorvia aquilo que me fazia um ser humano melhor. Já parei bicicleta em vaga de bicicleta de idoso (mas naos sabia ta?), já cheguei atrasa, esquecia meu garfo sempre, achei estranho quando me cobraram 1 centavo (azar da pessoa que teve que trocar depois uma nota de 50), tem sido uma aventura todas minhas tentativas.

O primeiro nível foi completo, usei todas as vidas que tinha, mas consegui. E estou pronta para a nova fase nesse jogo que não me permito dar game over que é a vida.

Minha mãe sempre disse “Xofanna pare de inventar moda!” – Pois é, que bom que nunca escutei.

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