Cidadania na itália | Histórias de Giovana Penatti -

VIVER NA ITÁLIA

Cidadania na itália | Histórias de Giovana Penatti

, por colaborador

Cidadania na itália essa é uma das histórias de Giovana Penatti, que veio para Itália e tem descoberto como é viver aqui.

Quando eu tinha uns seis anos, talvez até menos, tive um trabalho na escolinha que era sobre nossa família. Acho que era montar a árvore genealógica, algo assim. Essa é minha primeira lembrança de saber que minha família não era, originalmente, do Brasil. Meus pais, sim; meus avós, também; mas os pais deles, pelo lado do meu pai, tinham vindo da Itália.

Não fazia a menor ideia de onde era a Itália, mas fiquei fascinada. Contei pra todos os meus amiguinhos que meu bisavô era italiano, como se o estado de São Paulo inteiro não dividisse a mesma experiência.

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Essa empolgação sempre foi coisa minha, alimentada pela minha mãe, que é curiosa como eu, sempre me falou para sair do país, ir morar fora, e essa é uma vontade que tenho desde tão pequena que talvez tenha nascido com ela.

A vida toda, fiz planos para morar fora. Esbarrei em vários “quases”. Tentei intercâmbio pela faculdade, mas não tinha grana na época. Procurei empregos nos exterior, nada funcionou. Fiz de tudo pra perder o voo de volta dos EUA pelo menos duas vezes. Se meu visto tivesse sido aprovado, teria ido morar na China. Pensei em ir pra Argentina ou pra Colômbia pra aprender espanhol nesse meio-tempo. Nada deu certo.

Via todo mundo indo morar no exterior e me frustrava: por que só eu não consigo?!

Cidadania na itália | Histórias de Giovana Penatti

Num daqueles momentos em que a gente precisa de uma mudança total, que muda de cor de cabelo, de corte, de emprego, eu tomei uma decisão que estava na minha cara o tempo todo, desde criança: fazer o reconhecimento da cidadania italiana, na Itália. Morar na Itália, e, depois, em qualquer país da Europa. Parecia minha única chance de realizar esse sonho, e provavelmente era mesmo.

Cidadania na itália | Histórias de Giovana Penatti

Então, em novembro de 2018, cheguei na Itália para realizar o meu processo de cidadania. Mas, antes, preciso voltar alguns meses, até anos antes, durante a preparação dos documentos.

Enquanto ter a cidadania italiana me trouxe um monte de vantagens que, pra quem não compartilha os mesmo sonhos e objetivos, não são lá grande coisa, ir atrás dela me fez aprender mais sobre minha família. Ter o passaporte vermelho é legal, é ótimo, facilita muita coisa e abre muitas portas, mas talvez a melhor parte da cidadania italiana tenha sido ouvir as histórias que minha avó, agora com 94 anos, lembra de quando era pequena. E, talvez pelo fato de ter 94 anos, conta várias vezes a mesma história, mas não importa, eu ouço toda vez.

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A minha preferida é a de como o pai dela veio parar no Brasil, ainda criança, com os pais que “fugiram” da Itália para impedir que a guarda do filho adotivo (o “tio João”, como ela chama, e que nos documentos que encontrei se chama Giovanni) ficasse com o seu pai biológico.

“Vó, isso não é um sequestro??” E ela para pra pensar por alguns segundos – “Não sei. Mas imagina, você ter criado a criança até os sete anos, e vem o pai querendo levar ela embora?? Eles entraram no primeiro navio e vieram pro Brasil”.

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Ela também conta do avô dela, de quem ela só se lembra de costas, com um casaco comprido, preto, até o pé. “A gente chamava ‘capoto’, não sei como chama hoje”. Ainda é “capoto”, mas em italiano. “Ele se vestia assim porque a região de onde ele vem é muito fria lá, no Norte da Itália”, mais precisamente no Veneto, onde eu morei para fazer a cidadania e, depois, escolhi ficar. “Ele é de Vicenza”, conta com a pronúncia bem brasileira: “Vissenza”.

Na verdade, a família da minha avó é de uma cidade da província de Vicenza, chamada Altavilla Vicentina. Fui conhecê-la logo que cheguei, até fiz um “vlog” pra mostrar como era. Ela não se empolgou tanto, porque o pai dela era de “Vissenza”. Um dia, vou pra lá só pra fazer outro vlog, agora para que ela conheça a cidade “de verdade”.

Meu bisavô teve um bar em Piracicaba, que minha vó rapidamente emenda que “não era bem um bar, na época chamava assim, mas não era um bar que vendia cerveja”. Era um lugar onde as pessoas tomavam café, pediam lanches, paravam para uma pausa rápida ao longo do dia, como os italianos fazem no que, aqui, se chama “bar”.

Só entendi exatamente como era esse negócio do meu bisavô quando vim morar na Itália; é difícil explicar para alguém o que é o bar italiano, que é mais do que um lugar pra tomar uma cerveja ou um café. É quase uma construção social. Só quem viveu sabe.

Também foi morando na Itália que notei algumas coisas bem italianas no meu dia a dia do Brasil, coisas que eu achava que todo mundo tinha e descobri que não era bem assim.

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O mais evidente é o almoço de domingo na casa da vó, algo tão corriqueiro para nós e para a família de um amigo que fiz enquanto esperava a cidadania: ele não podia ficar fora de casa até muito tarde no sábado para não perder a hora no domingo. Olhando em retrospecto, não lembro de almoçar na casa da vó ser algo que meus amigos no Brasil faziam, mesmo eles também tendo ascendência italiana.

Percebo, também, alguns maneirismos que meu pai e meu tio têm ao falar, especialmente as mãos agitadas e alguns sons sem definição, mas cheios de significado. É difícil de explicar escrevendo, mas acho que você entende que é um “ôôô” com som de “ããã!” sempre que alguém força uma barra numa conversa.

Tantas italianidades na minha vida brasileira me mostraram como a cultura sobreviveu geração após geração, praticamente sem esforço, se entremeando no dia a dia da minha família. Não somos muito chegados em tradições, e, ainda assim, as que vieram com o avô dele da Itália permanecem até hoje – e só fizeram sentido como tradições quando, quatro gerações depois, voltei para o país da bota.

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